domingo, 29 de agosto de 2010

Um exemplo de mudança

Aqui no blog já discutimos casos de violência, tanto do aluno contra o professor como do professor em relação ao aluno. Desta vez, vou contar um caso que deu certo. A história de uma garota que conseguiu se recuperar.

Ela tinha 12 anos e já apresentava problemas em uma escola pública de São Paulo. Além de faltar muito, desrespeitava os professores, tinha um mau comportamento e saía com homens casados.

Para auxiliá-la, os professores da escola em que ela estuda decidiram unir forças. A solução encontrada foi dar mais atenção à garota, fazendo com que ela se sentisse importante.

“Se tinha algum passeio, geralmente iam os melhores alunos, mas a gente a escolhia. Também fazia com que ela passasse lição na lousa, me ajudasse. Ela começou a acreditar nela mesma. Hoje não é mais nem um terço do que ela foi”, contou uma das professoras da menina.

Essa estratégia de tornar o jovem problemático como um “assistente” costuma dar certo. Esse não foi o único caso do tipo que encontramos durante nossas pesquisas.

O que pode se entender a partir disso é que é preciso valorizar a criança. Ela deve se sentir importante, capaz. Só assim ela poderá confiar que pode evoluir e ainda acabará cobrando o mesmo dos colegas de classe.

Claro que essa não é uma fórmula mágica. Talvez não funcione com alguns jovens e muitos outros setores da educação precisam ser aprimorados para garantir que essa melhoria não termine.

O que fica como esperança é a realidade dessa menina. Hoje com 14 anos, ela estuda, trabalha e vai à escola nas horas livres para ajudar a arrumar as salas e a biblioteca. E ainda diz: “Professora, agora eu vejo como perdi tempo na minha vida”.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O professor também agride?

No dia 13 de agosto o site Globo.com divulgou uma matéria que me deixou bastante pensativa. O texto falava de uma professora de uma escola municipal da Bahia que era suspeita de cortar o cabelo de seis alunas de 8 a 10 anos, que cursam o Ensino Fundamental I.


Segundo a reportagem, a professora afirmou que a intenção era tirar chiclete do cabelo das alunas. Porém, as meninas disseram que nunca viram as gomas de mascar e, ainda, que a educadora guardava os fios de cabelo em saquinhos na bolsa.


A primeira coisa que veio à minha cabeça quando li a matéria foi: “Nossa! No nosso projeto estamos falando da violência contra o professor... Mas e a violência do professor?”


Não posso julgar completamente o caso dessa professora da Bahia, pois nada está comprovado, mas penso que, se for mesmo culpada, ela não agiu dessa forma impulsionada por uma violência que sofreu dessas meninas. Pelo menos, não acho que cortar o cabelo de crianças seja uma maneira de devolver uma agressão sofrida.


Com isso, lembrei-me de uma pessoa que entrevistei para o Projeto SOS Professor nas férias. Ela recebeu xingamentos de um aluno da 8ª série de uma escola pública e retrucou; também foi agredida fisicamente, e revidou. E desejou poder bater muito no garoto, apesar de não fazer isso.


A atitude dessa professora não foi a ideal para a situação, claro. Mas ela me disse algo que me fez entender muito mais a situação pela qual passou. “Apesar de tudo, eu sou humana”. E ela não está errada com esse pensamento. Uma coisa é agredir os alunos de alguma forma sem nenhum motivo aparente, outra é agir desta forma depois de receber ofensas.


Não estou aqui para defender a atitude da professora com a qual conversei, mas quero expor, por meio dessas suas situações, o meu ponto de vista de que existem violências do professor com algum tipo de fundamento. Concordo que nos dois casos que contei aqui a violência poderia ter sido evitada. Porém , na segunda história, a situação era mais difícil, pois a paciência da docente foi “cutucada”. Já na primeira história, aparentemente, evitar a situação dependia apenas da professora.


No final, a educadora com a qual conversei pediu desculpas à mãe do menino e ficou feliz por saber que ele, depois, conseguiu seguir um bom caminho. Mas também desejou nunca mais passar por isso. E realmente não passou. Hoje, segundo ela mesma contou com orgulho, tem um bom relacionamento com os alunos e raramente leva problemas da sala de aula para a Direção da escola.


Por hoje é isso! Até o próximo post!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Muito além da violência escolar

Quando decidimos pelo nosso tema do Trabalho de Conclusão de Curso, tínhamos alguma ideia do que esperávamos encontrar, é claro. Depois de algumas semanas de entrevistas com professores de variadas regiões e escolas, descobrimos que nosso tema aborda muito mais do que violência contra professores e nos sentimos na obrigação de pincelar algumas delas no nosso livro-reportagem.

Acabamos nos deparando com situações e depoimentos críticos. Não encontramos apenas professores que são violentados diariamente, mas também pessoas que já estão, no nosso entendimento, descontroladas psicologicamente. Pelos relatos que temos, a falta de estrutura total da educação colabora, e muito, para a falta de estabilidade psicológica de alguns.

“Um mês atrás um professor bateu a cabeça na parede, ficou tão nervoso com a aluna que eu, que estava dando aula, tive que sair e atuar como mediadora. Ele perdeu a paciência com a aluna. Ele se sentiu acuado e não podia agredir, claro. Então começou a bater com a cabeça na parede na frente dos alunos”, contou uma educadora ao projeto “SOS Professor”.

A falta de educação dos alunos contribui, mas outros pontos colaboram para o quadro que encontramos hoje na educação. A falta de estrutura escolar e familiar, o tráfico de drogas e a inclusão desordenada são alguns dos fatores citados pelos professores entrevistados pelo grupo.

“Chamamos a mãe e ela diz: ‘eu não acredito que vocês me chamaram aqui pra dizer que ele não faz a lição! É pra isso que vocês me chamaram aqui? Eu tenho treze filhos! Você acha que eu tenho tempo de ficar aqui ouvindo que ele não tá fazendo lição?’”, conta outra professora.

Além do descaso dos pais, também ouvimos educadores que reclamaram da falta de tratamento psicológico. “Tem um professor lá que está dando aula com sonda, porque não dão afastamento. É tudo meio apertadinho, não tem pátio, o Estado não tem essa estrutura de ver o professor, de ver que o professor precisa de um apoio psicológico”, exemplificou uma educadora de São Paulo.

Outra ainda alertou para o problema da inclusão desordenada. A lei obriga a inclusão, mas é falha e não treina ninguém para lidar com essas pessoas nas escolas. “Eu também acho que a gente tem de aceitar o aluno especial, mas eu acho que a gente tem de ter na escola alguém ou alguma coisa que possa dizer quais são as necessidades deles, né? Porque a gente não é habilitado pra lidar. Eu não sou, eu não sei lidar”, contaram ao blog.

É lógico que não consigo detalhar todos esses problemas em um post do blog, seria impossível. O tráfico de drogas influi diretamente no dia a dia da escola e não foi abordado apropriadamente nesse post, foi apenas citado porque merece um post sozinho. Temos depoimentos variados, até dos que acabam defendendo o tráfico para o bom andamento das atividades escolares.

“Ele (aluno) continuava trabalhando pro tráfico, todo mundo sabia, eu sabia [...] Eu não ia bater de frente com ele, sabe?”, disse uma entrevistada. Essa frase sintetiza bem a realidade. Numa outra ocasião, detalhamos o assunto.

Até mais!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A faixa amarela

Vários de nossos entrevistados reclamam: A prioridade dos alunos hoje não é aprender, entrar numa faculdade, nada disso. É simplesmente fazer parte de um ritual obrigatório pela lei, ou, no caso dos mais velhos, passar um tempo longe dos pais. Até eles, aliás, muitas vezes tem um pensamento parecido: "Eu mando ele para a escola pra ver se ele para de enxer o saco em casa".

Como lidar, então, com alunos que não se importam com o que o professor tem a dizer, ridicularizando-o, ignorando-o e etc? Ameaçando uma expulsão que dificilmente se concretizaria? Levando os problemas para fora da sala de aula, a diretores e coordenadores?

Revidando as grosserias e palavrões na mesma moeda? Mostrando quem manda, punindo com mais rigidez? Tornando-se amigo, falando de igual para igual?

Entrevistei recentemente dois professores que trabalharam em escolas cheias de bandidos e protagonistas do tráfico de drogas em seus bairros. Eles acreditam que, em um ambiente assim, o mais importante é falar a mesma língua que eles. Mostrar, de forma clara para eles, que o que está sendo ensinado tem algum valor para a vida dos alunos.

Não é preciso usar palavrões, xingar. É questão de demonstrar que ele depende do professor assim como o professor depende da atenção dele.

Mas não é fácil, claro. Não é facil tornar-se "amigo" dos alunos sem perder a autoridade sobre eles. A linha entre o "ser amigo" e "ser um professor amigo" é muito fina. É preciso experiência e reflexão para não não perdê-la de vista.

A dificuldade em enxergar essa "faixa amarela" é apenas um dos problemas que abordamos na elaboração de nosso livro-reportagem. Acompanhe o blog para saber de mais.

Se quiser saber mais sobre o histórico das relações entre aluno e professor e índices de violência nas escolas nos últimos anos, leia o nosso pré-tcc aqui.