Carinho. É o que melhor define a forma com que Silvinha olhava para cada um dos alunos do centro educacional que dirigia. Havia os que apanhavam dos pais, os que tinham vindo da Febem, os que tinham pais na cadeia... Não importava. Ela sentia que carinho era o que faltava para todos eles; e eles receberiam isso em sua escola a qualquer custo.
Como em todos os dias, a coordenadora baixinha, gordinha e com os cabelos loiros impecavelmente escovados, passava os olhos pelas filas de crianças que se preparavam para entrar na sala de aula. E tudo parecia estar bem naquele dia... Mas ali, perto de onde ficavam os alunos do quarto ano, havia alguma coisa errada.
Uma cor azulada subia pelo rosto do garoto de dez anos. Marcos, cheio de raiva, estava enforcando-o.
Silvinha não pensou duas vezes: correu para separar a briga. Empurrou Marcus e virou-se para ver se o outro estava bem. Marcus, vermelho, começou a dar chutes altos na professora, até que ela caiu no chão com o ombro deslocado.
Por conta desse episódio, há mais de um mês ela comparece religiosamente à fisioterapia. Quanto ao aluno? "Ele pediu desculpas, não foi de propósito. É do tipo que agredia verbalmente o professor, falava palavrões... Mas comecei atrabalhar com ele separadamente, e ele foi melhorando. Tenho o maior carinho por ele. Foi rejeitado pela família, tadinho. A mãe disse que estava cansada dele..."
O carinho de Silvinha por seus alunos é tanto que ela já chegou até a adotar alguns. Quando pedi que ela contasse histórias em que teria sofrido violência na escola, ela raramente lembrava. Mencionava apenas a situação inversa: professoras "malvadas" e "insensíveis" que não sabiam como lidar com crianças problemáticas.
"Eu tinha mais problema com a mãe do que com o aluno. Elas tem ciúme. Às vezes a criança gosta mais de você do que da própria mãe. Sabe, minha sala de direção era muito bonita, tinha brinquedos, tudo que criança gosta e quando acabava o expediente, alguns iam pra lá. E tinha mãe que não gostava disso... Sempre tive um carinho muito, muito especial." E reafirma: muitas mães não gostavam muito dela, mas ninguém jamais chegou a ameaçá-la ou agredi-la.
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"A realidade dela é tão ruim que ela achou um jeito de acreditar que seja melhor. E conta isso para as pessoas". Essa declaração sobre Silvinha é de uma supervisora de ensino. Ela, a Secretária de Educação e várias outras pessoas que já trabalharam com a professora até deram risada ao ouvir o resultado da entrevista que gerou a história narrada acima. Várias inverdades. Tantas que a personagem nem mesmo faz parte do livro SOS professor. Estamos falando de um produto jornalístico, não é mesmo?
Vejamos um exemplo. A sala de direção "muito bonita" que Silvinha descreveu era, segundo a Secretária da Educação, um lugar extremamente desorganizado e sujo. Havia um toque pessoal: paredes cor-de-rosa. Mas havia carteiras quebradas, papéis espalhados para todo lado, computadores velhos... Quem chegava não encontrava nem mesmo onde sentar.
Silvinha também não era tão querida em sua escola como conta. Na verdade, segundo uma supervisora de ensino, as mães dos alunos ameaçaram fazer um panelaço caso ela não saísse dali. Alegavam que ela tentava ensinar religião à força, e que era uma mulher completamente louca. Acabou transferida para outro Centro Educacional.