segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Progressão continuada - um sistema ineficaz

Em São Paulo, desde 1998, adota-se o sistema de Progressão Continuada. Em uma explicação simplória, ele define que não é possível repetir de ano os alunos que tirarem notas ruins. Só é possível reprovar se a criança chegar ou superar a marca de 25% de faltas.

O objetivo é não desmotivar os alunos que, quando repetiam, acabavam abandonando a escola. O problema é que não há uma estrutura educacional que permita uma recuperação a esses alunos com dificuldade de aprendizado.

Muitos alunos simplesmente passam de uma série a outra e concluem o terceiro ano do Ensino Médio sem ao menos saber interpretar uma frase ou solucionar um problema matemático mais elaborado.

A consequência mais óbvia dessa realidade é o despreparo desses jovens. Eles não se formam em condições de disputar uma vaga em uma universidade. Não têm conhecimento para buscar uma vida melhor.

O segundo efeito disso é a indisciplina. O aluno que passa de ano sem aprender chega à sala de aula desinteressado, pois não consegue assimilar o conteúdo mais avançado da série seguinte. Afinal, se ele não aprendeu um determinado conceito na sexta série, por exemplo, não conseguirá compreender uma matéria mais complicada na sétima.

O que pode se concluir com essa realidade é que esse é um programa ineficiente. Se não é possível aplicar um sistema forte de recuperação a esses alunos, para que eles possam chegar preparados à série seguinte, então não há sentido.

O ideal é fortalecer o ensino da Educação Infantil ao Ensino Médio, remunerando melhor os professores, melhorando a estrutura das escolas e incentivando práticas diferenciadas dentro das instituições.

domingo, 19 de setembro de 2010

E a saúde, onde fica?

Terminei a transcrição da minha última entrevista com uma professora da rede pública. Ela, com menos de 50 anos, está afastada da escola há 2 anos e meio por conta de um diagnóstico de estresse e problemas nas cordas vocais, e busca uma readaptação.

Para escrever esse post, pesquisei dados sobre o assunto no Google e encontrei no site da revista Carta Capital o texto “Educação sem remédio” (disponível aqui). Dulce Critelli, a autora, comenta uma pesquisa que está sendo realizada pelo Departamento de Saúde do Servidor (DSS), da Secretaria Municipal de Gestão e Desburocratização de São Paulo. Como não encontrei nada sobre o assunto no site do DSS (ainda tentarei falar com eles para saber onde encontro esses dados), reproduzo parte do conteúdo do texto de Dulce:

“Os dados indicam que, dos 55 mil professores da rede, 16 mil (30%) foram afastados por motivos de saúde. Dentre esses, 4,9 mil profissionais (cerca de 10% de professores e 30% do total de afastamentos) o foram por transtornos mentais e comportamentais. Os demais casos tiveram por causas doenças osteomusculares, lesões por esforço repetitivo e doenças do aparelho respiratório. Comparados aos dados de 1999, que indicam 16% de afastamento dor razões psiquiátricas, os atuais 30% são preocupantes”.

Uso esses dados apenas para dar uma dimensão da conversa que tive com a minha entrevistada. Ela, que inúmeras vezes por ano passa por uma nova perícia para renovar a sua licença, me contou diversas histórias que descobre ao conversar com as pessoas nessas ocasiões. E a conclusão a que chegou é a de que muitos professores preferem trabalhar doentes a enfrentar a burocracia que é para conseguir suas licenças.

Corre na escola, faz relatório, marca data pra perícia, vai outro dia passar com o perito... Tantas datas deixam os professores, que neste caso já não estão bem de saúde, ainda piores. E se perder a data, aí complica ainda mais a situação.

Hoje, a professora com quem conversei diz: “Ainda tô nessa porque tenho fé em Deus que vou conseguir minha readaptação”. Mas, com a experiência que tem em busca de licenças médicas, desabafa: “É porque eu já tô nesse barco, porque se fosse pra eu entrar, se eu pudesse escolher entrar nisso aí, não sei ,não, acho que eu ia pensar dez vezes”.

Até a próxima!

domingo, 12 de setembro de 2010

Incentivo

Na tarde da última quarta-feira (8), visitamos a E.E Samuel Morse, na Zona Sul de São Paulo. Foi muito interessante e bem diferente de todas as outras que passamos. Fomos até lá conferir como funciona o projeto do Instituto Unibanco naquela escola. Descobrimos que uma boa administração faz toda a diferença. Além disso, comprovamos mais uma vez que ter uma direção atuante é essencial para o bom funcionamento da escola.

O projeto se preocupa em ajudar tanto na parte pedagógica, quanto na financeira. A escola recebe uma verba (cerca de 100 reais por aluno) e deve fazer um plano de ação de como vai aplicar esse dinheiro, tudo devidamente aprovado pelo Instituto. O plano abrange apenas alunos do Ensino Médio, porque é quando os jovens desistem de freqüentar as aulas.

Acho que incentivo é a palavra do programa. Resumindo bem as atividades: o Instituto Unibanco realiza provas diagnósticas no começo do ano para descobrir como os alunos estão em português, matemática, etc. No final do mesmo ano, aplicam outro teste para avaliar se os alunos melhoraram ou continuaram na mesma. Se piorarem, estão fora do projeto. Todos os bons resultados são devidamente premiados – tanto os alunos, quanto os professores.

Os educadores que menos faltam ganham bônus de 150 reais. Além disso, o programa ainda garante ingressos para cinema, cursos e uma mudança geral na sala dos professores. No Samuca eles ganharam sofás, geladeira e até uma máquina de café expresso. Ah, tem também um pacote turístico para os professores das melhores salas.

A efetividade de todas essas ações é visível. Os alunos querem vir para escola, o índice de violência é baixo e a família se aproximou da escola. Cerca de 200 alunos de outras escolas já pediram transferência para a escola que fica próxima ao Hospital de M’Boi Mirim.

O interessante é que de manhã e à tarde, quando estudam os alunos de 1ª a 8ª série, tudo é muito diferente. Os alunos são mais rebeldes - xingam os professores, destroem carteiras e andam pelos telhados da escola.

Como esses alunos não fazem parte do projeto, a diretora da escola resolveu inovar para corrigir essa bagunça. No intervalo, os alunos aprendem xadrez, já que estão sem quadra. Como não tem verba para levar ao cinema, fazem sessão pipoca na escola. E assim, vai adaptando tudo o que pode, deixando os alunos e professores mais satisfeitos.

Depois de visitar escolas com tantos problemas, ir até o Samuel Morse foi incrível. Descobrimos que sempre há um jeito de fazer dar certo.

Até mais!

domingo, 5 de setembro de 2010

Qualquer escola pode ser boa

Com base nas visitas que temos feito a escolas desde o início do projeto SOS Professor, formulei uma lista dos itens que, na minha opinião, são essenciais para que uma escola pública seja considerada "boa". Boa, no sentido de ter pouca violência, muito estudo e profissionais que gostam de trabalhar. Convido quem quer que se disponha a ler o texto a comentar para sugerir alterações e acréscimos.

1 - Direção atuante -
A maioria das escolas tem a mesma cara de quem as dirige. São a direção e a coordenação da escola as responsáveis por administrar os recursos humanos e financeiros da escola. Depende delas a possibilidade de todos os próximos itens da lista existirem, integrando funcionários, alunos e a comunidade do bairro.

2 - Estruturas físicas adequadas -
"Se o cara encontrar o vidro quebrado, vai quebrar outros", disse o diretor de uma das melhores escolas que visitamos até agora. O ambiente escolar é extremamente importante. Se estiver bem cuidado, vai deixar o professor com mais vontade de dar suas aulas, e os alunos confortáveis para assisti-las.

3 - Professores motivados -
A escola em si normalmente não tem poderes para dar incentivos financeiros aos seus funcionários. Porém, como já comentamos por aqui, salário não é o mais importante. Liberdade para realizar projetos diferentes com os alunos, ponderação na resolução de conflitos com alunos e pais são atitudes importantíssimas que professores esperam da direção. E por que não um mimo de vez enquando, como um bombom no Dia do Professor e um café sempre quente na hora do intervalo?

4 - Integração com a comunidade -
Um dos maiores problemas enfrentado pelos professores na sala de aula é a fala de estrutura familiar dos alunos. Pais que largam alunos na escola sem se importar com o que está sendo feito lá dentro, que não colaboram na educação de seus filhos e, muitas vezes, entram em conflito com a escola. Os conselhos de classe participativos, feitos reunindo coordenação, professores, alunos e pais são uma boa alternativa para o problema.

5 - Ambiente atrativo -
A escola não precisa ser um ambiente apenas de obrigações e deveres. É importante que os professores saibam oferecer atividades diferentes e criativas em suas aulas, como debates, discussões, exposições e apresentações. Ficar apenas no giz e lousa cansa tanto o aluno quanto o educador. Além disso, a escola também precisa ter criatividade para organizar eventos que mudem a visão que o bairro possui daquele ambiente fechado por grades e regras.

Até o próximo post, quem sabe com mais itens para a lista!